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Raymundo, Júlio, Patrícia e Viviane têm um
problema em comum: a dor nas costas. E é muito
provável que você se junte a eles nesse grupo.
Afinal, segundo estimativas da Organização Mundial
da Saúde, 85% da população vai viver ao menos um
episódio de dor nas costas ao longo da vida. E,
prepare-se, porque, para esses bilhões de pessoas,
as notícias não são boas.
Um estudo publicado neste mês no "British Medical
Journal" mostrou que a recuperação das lombalgias
(dores lombares) é muito mais longa do que o
previsto pelas atuais orientações médicas.
Os pesquisadores, liderados por Christopher Maher,
do George Institute, na Austrália, acompanharam 973
pacientes nesse país. Pelas diretrizes, o esperado
era que 90% deles se recuperassem em até seis
semanas. O resultado: um terço continuava a sentir
dor um ano após o início do problema -a dor nas
costas passa a ser considerada crônica após três
meses.
E, para quem chegou a esse estágio, a perspectiva de
tratamento também não é das melhores. "The Spine
Journal", uma das principais publicações destinadas
ao assunto, dedicou sua primeira edição deste ano à
avaliação das opções de tratamento para lombalgia
crônica. O problema, segundo os autores, já começa
na hora em que o paciente decide buscar ajuda. A
quem recorrer: acupunturistas, reumatologistas,
massagistas, ortopedistas, quiropraxistas?
A variedade de tratamentos é ainda maior. A
publicação reuniu pesquisas sobre aproximadamente
200 opções -o que foi chamado de uma seleção
"simplificada". A lista inclui mais de 60 remédios
(de antiinflamatórios a antidepressivos), 32
terapias manuais, 20 programas de exercícios, 26
modalidades físicas passivas, nove terapias
educacionais e psicológicas, mais de 20 tipos de
injeção, além de procedimentos cirúrgicos,
abordagens de medicina alternativa e diversos
produtos como cintas e cadeiras especiais.
Uma oferta que, de acordo com a revista, remete a um
verdadeiro "supermercado" para dor nas costas.
Não bastasse a confusão que esse excesso de opções
poderia causar, a conclusão dos pesquisadores é que
as evidências científicas são limitadas, tratamentos
que nunca foram submetidos a testes são apresentados
como chances de cura e, quando as pesquisas mostram
que determinado procedimento gera apenas um
benefício mínimo, ele não é descartado.
"O problema é que nós não entendemos as lombalgias
muito bem. Até o momento, quase todos os tratamentos
são voltados para os sintomas, e não para a causa.
Para a maioria das pessoas, a causa da dor nas
costas nunca é estabelecida e o diagnóstico da
estrutura que causa a dor não é possível. Assim que
nós pudermos definir o que causa o problema,
poderemos desenvolver estratégias para preveni-lo ou
tratá-lo de forma mais efetiva", disse à Folha o
pesquisador Christopher Maher, do George Institute,
responsável pela pesquisa.
Uma barreira para que esse avanço ocorra, porém, é
que a dor nas costas não é um tema prioritário para
as agências de pesquisa, afirma Maher. "É muito
difícil convencê-las a financiar pesquisas sobre
lombalgias, embora esse seja um problema que custe
bilhões de dólares por ano."
Do médico à benzedeira
É nesse cenário que quem sofre com dor nas costas
inicia a sua saga -que pode durar semanas, meses ou
anos. No método de tentativa e erro, pacientes e
profissionais de saúde vão descartando opção por
opção na busca da cura.
"A maioria dos pacientes que chegam ao ambulatório
já passou por muitos profissionais e experimentou
diversos tratamentos. Tomou remédios, fez massagens,
submeteu-se a sessões de acupuntura, tomou
fitoterápicos. Cansadas e com dor, as pessoas
procuram até benzedeiras", conta o fisiatra Carlos
Alexandrino de Brito, coordenador da Escola de
Postura da divisão de medicina de reabilitação do
Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São
Paulo).
Para ele, os pacientes muitas vezes recorrem a essas
opções porque não receberam o apoio dos médicos que
os atenderam: "Como a dor nas costas atinge muita
gente, os médicos desvalorizam o problema".
"São poucos os que querem se dedicar a essa área, e
o assunto vira até piada. Muitos profissionais não
entendem o prejuízo financeiro, social e psicológico
que a dor nas costas traz. Em vez de avaliar o
paciente de forma adequada, receitam um remédio para
tratar a dor -e não a sua causa", afirma Brito.
Um risco, de acordo com o fisiatra, é que uma
abordagem superficial acabe deixando passar
problemas graves que também podem gerar dores na
região das costas, como alguns tumores, alterações
cardiovasculares, processos reumáticos e problemas
gástricos.
Exame e prescrição
Para o reumatologista José Goldenberg, professor da
Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), outro
problema no atendimento dos pacientes é que a
avaliação médica tem sido cada vez mais restrita à
realização e à interpretação de exames. No caso das
lombalgias, afirma, isso é especialmente
prejudicial, já que nem sempre há uma correlação
entre a imagem e o sintoma.
"É possível existir dor sem alterações no exame e
ter uma hérnia de disco sem dor. Mas houve uma
substituição do ato médico pela máquina, e a gente
vê decisões médicas serem tomadas sem o
amadurecimento necessário, com base nas imagens",
afirma Goldenberg, autor do livro "Coluna Ponto e
Vírgula" (ed. Atheneu, 146 págs., R$ 42,30).
No que se refere ao tratamento, ele critica o que
avalia ser uma indicação abusiva de
antiinflamatórios e analgésicos e de procedimentos
invasivos como a cirurgia de hérnia.
"A recomendação geral é que a operação só seja feita
após trabalhar os fatores de risco por um período de
6 a 12 semanas e se houver uma correlação clara
entre os exames clínico, neurológico e de imagem",
diz.
O uso de antiinflamatórios e analgésicos também deve
ser cauteloso. Segundo Osmar Avanzi, professor da
Faculdade Santa Casa e membro da Sbot (Sociedade
Brasileira de Ortopedia e Traumatologia), quem tem
problemas gástricos, renais ou hepáticos deve evitar
esse tipo de medicação.
Excesso de remédios
Mesmo quem está livre desse tipo de problema não
pode usar esses remédios de forma abusiva ou por um
período de tempo muito prolongado -um estudo
canadense baseado em dados do sistema público de
saúde de Quebec mostrou que, para cada US$ 1 gasto
em antiinflamatórios, mais US$ 0,66 eram
desembolsados para combater seus efeitos colaterais.
Ainda assim, segundo dados norte-americanos
divulgados no "Spine Journal", de cada 100 pessoas
que procuram o sistema básico de saúde por dor nas
costas, 80 são medicadas -destas, 69 com
antiinflamatórios.
Segundo a publicação, o uso dessa medicação, assim
como o de analgésicos, é indicado para o alívio da
dor lombar crônica, mas é preciso que os médicos
informem os pacientes sobre os riscos e os
benefícios.
De acordo com Goldenberg, o indicado é que tanto a
avaliação médica como o tratamento incluam os
principais fatores de risco relacionados à dor nas
costas, como o peso, a postura e até a situação
emocional do paciente (veja quadro na pág. 11).
Um exemplo é o efeito do sedentarismo: a musculatura
das costas, responsável por manter o tronco ereto,
conta com a ajuda dos músculos do abdômen para
sustentar o corpo. Quando a barriga está flácida e
fraca, a maior parte do trabalho fica com as costas.
E o centro de equilíbrio do tronco fica desalinhado,
forçando a coluna e os músculos dessa região,
explica a fisioterapeuta Gerseli Angeli, do Cemafe
(Centro de Medicina da Atividade Física e do
Esporte), da Unifesp.
Já a prática de exercícios de alongamento e de
fortalecimento do abdômen três vezes por semana
leva, num período de dois ou três meses, a uma
melhora da condição muscular.
De acordo com o levantamento publicado no "Spine
Journal", há evidências moderadas de que exercícios
aeróbicos e de alongamento, assim como
hidroginástica, são efetivos para reduzir a
incapacidade gerada pela dor nas costas.
Segundo a publicação, ainda não há pesquisas que
comprovem a relação entre parar de fumar e emagrecer
e a melhoria de lombalgias. A indicação, porém,
permanece: para os pacientes fumantes, que parem de
fumar. Aos com sobrepeso, que emagreçam. (E aos
pesquisadores, um "forte encorajamento" para que
estudos sobre o tema sejam realizados.)
As mudanças no estilo de vida não garantem uma
"imunidade" contra a dor nas costas, mas, associadas
a outros fatores, podem ajudar a preveni-la. E, num
cenário em que os tratamentos despertam tantas
polêmicas e incertezas, parece ainda mais válido o
ditado: prevenir é o melhor remédio. AMARÍLIS
LAGE
JULLIANE SILVEIRA
DA REPORTAGEM LOCAL |