
O tempo passava e os últimos atletas se sucediam. Cumprimentavam-se numa alegria nervosa, eletrizada, de reencontro, e, aos poucos, em seu canto acomodavam-se na concentração, recolhidos em si mesmos, desejando esquecer-se.
O silêncio diminuía no fundo musical que auxiliava mais ainda a mudez. A melodia “new age” estimulava à meditação que a preparação. A voz do locutor intervalava com o sinal de avisos e informações sobre as regras e procedimentos.
Teve início o desfile com a apresentação dos 32 atletas. Perfilados em frente das autoridades da Confederação Brasileira de Karate, ali representado pelo seu presidente Edgar Ferraz, da Comissão Técnica do Kumite e do kata, dos representantes do São Paulo F. C., da arbitragem e dos poucos torcedores, os atletas davam sinal de atividade.
O Kata foi o primeiro. O grupo feminino seguido do masculino, um a um exibia sua arte esportiva.
O kata por natureza tem uma feição estética que primazia o atleta. Concentração, perfeição técnica, movimentos ágeis e com destreza, preenche o espaço e irradia arte. Para quem aprecia a sinfonia de movimentos é uma ocasião encantadora. Como de costume o silêncio acompanha esse espetáculo. O som que já era ausente ficou mais distante ainda. O movimento do quimono cujo vento cortava o ar provocando uma sensação de leque abrindo e fechando ou no “kia” do atleta, era a situação que quebrava o silêncio. Iniciando ou terminando a sensação de apreensão do karateca em sua apresentação era visível.
Tomou parte do espetáculo o Kumite.
Uma particularidade das seletivas, o silêncio.
Em qualquer campeonato, o vozerio humano atroante, condiz com a com toda energia que o kumite pulsa. Ansiedade, muita ansiedade, adrenalina, muita adrenalina e a expectativa exalam em forma de conversas, brincadeiras e gritos em metamorfose do vulcão em erupção do espírito do atleta.
Na seletiva não. Como não há permissão para torcer, orientar, gritar, vibrar, torna o local do espetáculo sem vida. Era como assistir uma exibição muda, A pressão interna dos atletas era uma perfeita desarmonia com o silêncio imposto.
Se porventura pudéssemos mensurar o silêncio no momento da seletiva e fosse passível de medir, a pressão sobre o psiquismo do karateca era de toneladas. Geralmente quem se apresenta espera uma resposta da platéia. A compreensão do aplauso ou da vaia dá à apresentação o tom do agradecimento ou da censura, o silêncio é mortal para o artista. No karate, o grito da torcida em sintonia com a luta torna o kumite emocionante. O espetáculo impressiona. O chão treme e os deuses no olimpo aplaudem os guerreiros em luta esportiva.
O início foi nervoso, tão nervoso que alguns “shiai kumite” terminaram sem vencedor obrigando definir entre o “ao” e o “aka” o braço elevado do árbitro, indicando o vencedor.
O silêncio continuava. Em cada "deai", em cada golpe a quietude dos bandeirinhas e dos árbitros intimidavam no silêncio. O receio do erro, o peso da disputa, gerava um combate nervoso. A tensão na mente do atleta ecoava no grito algumas vezes por acreditar no ponto certo, mas não ressoava da arquibancada.
Terminava a luta. O silêncio continuava, apenas entrecortado pelo o anúncio do locutor.
Entre frustrações e alegrias encerra-se a seletiva brasileira de karate.
Ali, a elite nacional presente, convocada para estar em frente a Comissão Técnica, distinguia a excelência do karate brasileiro. Quatorze karatecas estarão representando o Brasil no Mundial em kumite e seis farão o notável balé da apresentação do kata.
Depois de oito anos, tempos de glórias com Didi e Célio Rene, o Distrito Federal volta ao mundial pela competência de dois atletas. Luiz Carlos Jr. e Tony Jobson. É com orgulho que sentimos a convocação e com alegria transmitimos nossa esperança.
Da seleção brasileira, um grupo de nível, de alto nível do karate brasileiro, se desloca para o outro lado do mundo, no dia sete de novembro, mais precisamente para Tóquio, Japão. Levam a esperança e o som de muitas batidas nervosas e aceleradas dos nossos corações desejando que cada um faça o que tem de melhor em sua alma.
Lutar!
OSS
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